quarta-feira, 23 de Dezembro de 2009
Méri Craistmas
terça-feira, 13 de Outubro de 2009
Os prémios do CM
De facto, o jornalismo que aí se faz é uma espécie de miscigenação entre o jornalismo nonsense do "The Onion" e o teatralismo quase neoclássico das peixeiras do Mercado do Bolhão.
E um dos segredos do sucesso desse jornalismo começa logo na escolha do que é notícia...
Só para dar um exemplo, quiçá por os costumes do país serem tão brandos que um simples projecto se toma por semelhante a um acto já consumado, as pessoas nem precisam de escrever no livro de reclamações para darem azo a uma notícia... Basta ponderarem fazê-lo...
Outro dos segredos é a forma exemplar como retratam as pessoas que, por algum acidente, quase sempre negligência da parte de alguém, se vão desta para melhor: basta uma fotografia do defunto/a empunhada sanguinariamente pelo ente querido, de preferência estando este último lavado em lágrimas... Assustadoramente genial!
Contudo, não é só o jornalismo histriónico que me diverte. São também os comentários...
Uma das características dos Portugueses é a forma intelectual, sempre conhecedora da melhor evidência científica, com que opinam, despudoradamente, sobre todo e qualquer assunto. Outra característica é a forma totalmente pedagógica, a roçar o detectivesco, como o fazem. Mesmo que nunca tenha visto a "cena do crime", os suspeitos nem as vítimas, fazendo corar de inveja qualquer Sherlock Holmes que se preze, o português sabe sempre quem são os culpados.
A saúde não é excepção à regra.
Na minha opinião, o CM tem uma lacuna grave. Ao invés do Serviço Nacional de Saúde, não premeia devidamente as pessoas que, com tanto esforço árduo e dedicação, emitem a sua posta de pescada. Impõe-se aqui, portanto, no cumprimento do dever cívico deste blog, dar prémios aos comentários do CM, pegando em exemplos tirados directamente da secção de saúde.
- Prémio "a culpa é dos médicos"
- Prémio "A culpa é do governo, que quer que a malta quine para poupar nas pensões de reforma..."
"pneumonia bilateral, bem nao existe vacina da pneumonia?se existe toca a vacinar o povo.ou o governo ker poupar dinheiro"
- Prémio "Não é nada disso! No Botswana é que é bom!"
"Vivo desde 2001 na República Dominicana, acompanho diáriamente através deste meio, a nossa desorientada coexistencia. Portugal teria muito que aprender com este povo, acreditem! Quando se vê, de longe, ainda é pior. É aterrador. Para quê, tanta lamentação, se basta ler a nossa história, para se entender, como chegámos a este estado de coisas... "
- Prémio "Hospitais Portugueses: a criar excêntricos aos 40 anos..."
"Todas as semanas morrem prematuramente em Portugal pessoas por neglicencia dos medicos, pois eles apenas estao interessados no salario nas mordomias aproveitam o horario de trabalho para estudar tratar da vidinha particular e os doentes que se lixem. Ja reparam que em Portugal é considerado uma vergonha um médico chegar aos 40 anos e não ser rico ter duas casas carros luxuosos barcos motos etc.."
- Prémio "A culpa é da justiça"
"O problema é que nesta justiça não funciona,vão ter 80 anos e ainda andam atrás desse problema, eles sabem por isso estã"
- Prémio "Instituto Nacional de Estatística"
"Todos nos morreremos mas em Potugal a possibilidade [nos hospitais] sobe ai uns 50%"
- Prémio "Doutor Trolha"
"Trabalho num hospital e se as pessoas soubessem metade do que se passa, alguns médicos estavam nas obras a trabalhalhar."
- Prémio "A TAC até diagnostica unhas encravadas..."
"Então e nem sequer lhe fizeram um tac???"
- Prémio "Então e a TAC?..."
"É lamentável que uma urg.Hosp só sirva para se esperar. Um ECG e 1s análises bastava. Pagamos para isso, não?? mvlx"
- Prémio "Pois, nós agora temos a TAC..."
"É de lamentar que com as tecnologias existentes nos tempos de hoje, se verifiquem situações como esta."
- Prémio "Vai na volta tirei o curso de Don Juan e não sei..."
"Esses bandalhos em vez de cuidar dos doentes estão a pensar nas enfermeiras...."
- Prémio "My name is Bond.... Dr. James Bond..."
"Os médicos têm licença para matar neste país"
- Prémio "Eu é que sei, já diagnostiquei duas apendicites, três enfartes, cinco gripes A e um ataque de caspa, lá no escritório"
"batem se todos q são medicos e etc, mas qd aparece qq coisa mais complicada de diagnosticar ninguem sabe nada."
- Prémio "É a prática médica do escritório, estúpido!"
""prática médica geralmente aceite"? Qual é a práctica médica correcta? Os médicos em Portugal têm licença para matar..."
terça-feira, 22 de Setembro de 2009
História de um cuidador...
No início, era a apatia extrema, o desinteresse de Maria por tudo aquilo que a rodeava.
Depois, as perguntas repetidas, a presença de orificios de largura cada vez maior na rede que forma a memória, a perda dos nomes de objectos e palavras fora do uso comum (que tentava encapotar da melhor forma possível, por vezes com recurso a outras palavras igualmente elaboradas...).
António deixou de ter ordem na casa...
Gradualmente, Maria foi piorando: Os objectos fora do lugar, a incapacidade crescente para gerir o livre de cheques, o cartão multibanco esquecido numa caixa automática, o bilhete de identidade e os documentos da escritura da casa que foram parar ao caixote do lixo... E as confusões, cada vez mais...
António foi deixando de ter nome...
Maria perguntava-lhe onde estava o Marido, aquele rapaz altivo, bem-parecido e bem falante que lhe havia, a despeito das intenções do pai, roubado o sentimento. Paulatinamente, António passou a ser, de acordo com o momento, o sr. Engenheiro, o tio Lambuça, "o outro", ou, em certos momentos, negros como o cair da noite que, por saiba-se lá porque razão, teimava em os acompanhar, aquele que lhe queria "roubar o dinheiro", aquele que lhe queria fazer mal aos filhos, aquele que a queria matar. Quando assim era, Maria atirava-se a António com forças que só ela sabia onde ia buscar... E, sentindo-se ameaçada, gritava, esperneava, batia...
António quase deixou de ter amigos...
Os amigos do casal deixaram de ser tão assiduos lá em casa. Alguns vizinhos evitavam António na rua... valia-lhes a irmã de António, sempre disposta a ajudar...
António deixou de dormir tranquilo...
Quando dormia, três horas por noite, dormia em sobressalto, sempre com os nervos à flor da pele. Não fosse o diabo tecê-las, e Maria ver, nas sombras, um potencial agressor...
Maria passou a ter dificuldade gradual em se alimentar, em fazer a sua higiene pessoal... Depois, passou a não o conseguir fazer... Ao mesmo tempo, veio a incontinência, a necessidade de usar fralda durante a noite e, depois durante o dia... A necessidade de mover Maria de posição, de cuidar...
António deixou de conseguir cuidar como queria...
Depois da infecção urinária, acamou. De um momento para o outro, deixou completamente de falar... A decisão de colocar Maria numa casa de repouso foi para António a mais difícil de toda a sua vida. Contudo, sabia, no seu íntimo, que não tinha, humanamente, condições para cuidar da esposa durante as vinte e quatro horas do dia...
Apesar de ser das poucas pessoas com que se depara, António deixou de ter figura.
É, na maior parte das vezes, perpassado pelos olhar, outrora vivo, de Maria, como se algo de transparente se tratasse... contudo, talvez reminiscências da infância, os seus olhos ganham um pouco de vida, quando se aproxima um bolo de chocolate...
PS -Talvez seja necessário, além de nos lembrarmos do sofrimento dos doentes de Alzheimer, lembrarmo-nos do sofrimento dos cuidadores... e apoiá-los...
sábado, 8 de Agosto de 2009
Façam o favor de ser felizes...
quinta-feira, 4 de Junho de 2009
Crónica dos bons psicomalandros (III) - Os sabujos
Este tipo de psicomalandros não se encontra, normalmente, nas filas de espera para a consulta de psiquiatria.
Igualmente, também não é internado, a não ser em hoteis de cinco estrelas, ao abrigo de uma qualquer missão governamental...
Os sabujos - assim se chamam estes psicomalandros, são um milagre da biologia:
- Têm um faro especialmente apurado para situações que os coloquem em alhadas.
- Têm capacidade de persuasão - pensem no pior (leia-se, melhor) vendedor do círculo de leitores que vocês já viram. Agora, multipliquem-no por cem, e alarguem o objecto de venda para tudo à face da Terra...
- O desenvolvimento da musculatura das coxas - Nesta espécie de psicomalandros, a musculatura das coxas está extremamente desenvolvida, o que lhes permite livrar-se das alhadas e deixar para trás os seduzidos. O facto de, nos exemplares do sexo masculino, haver um tão grande desenvolvimento muscular face a uma baixa produção de testosterona permanece um mistério da ciência...
- Numa fase inicial do desenvolvimento, têm uma predilecção por ambientes amenos, que lhes aumentem, de forma confortável mas não excessiva, a temperatura nas suas regiões dorsais.
- Quando saem do seu habitat, esta espécie de psicomalandros arma, sem qualquer problema, células que segregam substâncias químicas venenosas, libertando de o ambiente à sua volta de qualquer ser vivo que se atravesse no seu caminho...
- Eventualmente, estes venenos conduzem à destruição do habitat, e de qualquer progenitor, próprio ou adoptivo, que lá se encontre, mas só quando este é incapaz de lhe fornecer o calor necessário à região dorsal.
- Durante o desenvolvimento, têm um alto grau de adaptabilidade a quaisquer outros habitats que frequentem.
- Possuem uma enorme capacidade de sedução superficial - Citando os melhores compêndios de psicologia à face da terra - as telenovelas mexicanas: "Ele é um sacana, mas eu gosto tanto dele!!!"
- Têm uma enorme capacidade de camuflagem. No restante Reino Animal, só o camaleão tem propriedades semelhantes.
- A personalidade destes psicomalandros quase sempre apresenta traços passivo-agressivos. Diz-se, no mundo da ciência que este fenómeno está em relação com os já falados níveis séricos de testosterona, mas os dados são inconclusivos...
- Possuem, ainda, uma ausência quase total de algo que se tornou uma desvantagem adaptativa da espécie humana - a ressonância afectiva.
- Por vezes, alguns exemplares deste tipo de psicomalandros apresenta algumas componentes delirantes de tonalidade quase messiânica, como é exemplificado a seguir...
Para ilustrar este tipo de psicomalandros, vou apresentar uma vinheta clínica, a exemplo de posts anteriores, com um caso clinico:
JAA, 52 anos, funcionário público.
De acordo com alguns colegas - que também sigo, (ouvidos, ainda que contra a ética e após a entrevista de JAA em entrevista separada), com quem reuniu, no contexto de uma reivindicação laboral, ter-lhes-á dito que o chefe os queria tramar [a eles], e que só com a intervenção dele é que isto não se verificou, porque "pôs o chefe a pensar"...
De acordo com o chefe, acusado de mobbing, durante a reunião, JAA aceitou pacificamente as sugestões que lhe foram feitas pelo superior hierarquico. Ter-lhe-á dito que os restantes trabalhadores se preparavam para lhe pôr um processo...
À observação, apresenta-se sintónico e cordial. Refere-me que ameaçou o chefe, durante a reunião, com os seus contactos no Ministério... Em relação aos outros trabalhadores, eles adoram-no e fazem tudo aquilo que ele diz... mas "é preciso ter cuidado com eles"...
Passados cinco anos sobre o caso, e depois de uma ausência forçada, reencontrei o processo, através de outro colega:
- O chefe tinha sido despedido;
- Os restantes trabalhadores queixavam-se de mais trabalho ainda;
- JAA tinha sido promovido e estava a preparar-se para se candidatar às eleições legislativas por um grande partido político...
Leitor amigo, um conselho para terminar:
Quando vir um destes exemplares da psicomalandrice em acção na sua empresa, não o provoque... é que ele tem uma probabilidade muito acentuada de ocupar uma posição de relevo na mesma...
Nota: a vinheta clinica é ficcional... (Percebe-se, não?!) Se por acaso achar que esta descrição se adequa a alguém que conhece, recorra ao serviço de urgência da sua área... e peça para lhe darem o medicamento mais forte que tiverem em stock...
terça-feira, 5 de Maio de 2009
Crónica dos bons psicomalandros (2)
Não, não vamos ter uma dissertação de 500 paginas sobre o programa de nenhum Governo para a última gripe da moda, que mata centenas de vezes menos do que a mais modesta tuberculose mas tem direito a maior cobertura mediática, e até já foi, pela negativa, estrela de telenovelas...
Vamos falar mesmo sobre reformas...
O bom psicomalandro que se preze, que tenha menos de quatro tumores malignos em coabitação um pouco menos que pacífica no seu organismo e menos de 65 anos de idade não é, como é do conhecimento público, elegível para a reforma.
Assim, este blog dá umas dicas para quem se quer reformar usando a psicomalandrice.
- Abra o DSM-IV TR (ou versão mais recente que vier a ser entretanto publicada). Para quem não sabe, o DSM-IV TR é a bíblia da psiquiatria americana. Contém, num formato redutor q.b., com a consideração que os americanos sempre se habituaram a dar ao trabalho feito pelas pessoas do resto do mundo, a súmula dos diagnósticos psiquiátricos.
- Escolha uma doença (ou grupo de doenças) da sua predilecção.
- Decore os critérios, vírgula por vírgula, ponto por ponto, dessa doença. Sublinhe a marcador os termos que lhe parecerem mais esquisitos e veja num dicionário.
- Note que, como bom doente psiquiátrico americano de estudo, não deve ter aquilo que os médicos chamam comorbilidades - por exemplo, consumir álcool, drogas ou CD's do Toy. Não pode padecer de outras doenças, desde a gripe das aves até à rinite alérgica. Não deve ainda estar a fazer qualquer tipo de medicação, incluindo, se é mulher, o medicamento-que-faz-com-que-a-pessoa-vá-para-a-farra-e-evita-que-tenha-surpresas-ao-fim-de-nove-meses. (vulgo, pílula)
- Fale com o vizinho do lado, o padre, o ajudante de farmácia lá da terra, o tipo que encontra a sair de casa da sua vizinha quando o marido dela não está, a senhora que vende hortaliças lá na praça e o polícia sinaleiro, e diga-lhes que se quer matar. (este passo tem algo de comum com o tutorial anterior)
- Tente resistir ao genérico que o ajudante de farmácia lá da terra lhe quer vender, dizendo-lhe que até lhe trata as varizes. Afinal de contas você não se quer tratar. Quer é reformar-se.
- Fale com o médico de família. Recite-lhe a cantilena que aprendeu com o DSM-IV. Com sorte, ele referencia-o a um psiquiatra.
- Quando, ao fim de uns meses, chegar à consulta de triagem da psiquiatria, diga ao médico apenas os termos mais esquisitos, sem vírgulas nem pontos finais. Se tiver sorte, o clínico achará que está com uma perda de associações lógicas do pensamento, e, ou o interna num serviço de psiquiatria (veja o ponto seguinte) ou envia-o para a consulta de um qualquer interno do segundo ano de especialidade.
- Se for internado, saiu-lhe a sorte grande. É que o internamento conta para o curriculum...
- Uma vez na consulta, recite ao interno do segundo ano a referida cantilena. Não se preocupe se falhar algum ponto, porque não há psiquiatra que a saiba toda de trás para a frente.
- Se tiver alguma sorte, o interno da especialidade manda-o fazer uma data de exames. No mínimo, EEG e avaliação psicológica.
- Em relação à avaliação psicológica, sugerimos apenas que não responda coisas muito lineares... Basta "os seios da Sónia", se lhe mostrarem pranchas de Rorscharch.
- Se por acaso o diagnóstico do interno de psiquiatria não coincidir com aquele que leu, no DSM-IV, pergunte directamente ao interno de psiquiatria: "Soutor, o que é mais grave? Perturbação (a do DSM) ou aquela que está a dizer?"
- Leve o relatório que for feito a uma junta médica.
- Se a junta médica estiver de bom humor, está com sorte. Se não, chore copiosamente quando lhe disserem que não tem idade para ser reformado/a. Imite a dança das formigas assassinas em plenas instalações da junta e repita todos os passos.
sábado, 2 de Maio de 2009
A minha consulta não é assim...
Digam lá que "estacione as ancas no assento" não é uma coisa bonita de dizer para se iniciar uma consulta... Tão romântico quase como o "Deite-se na marquesa e abra as pernas" dos ginecologistas...
