quarta-feira, 4 de novembro de 2015

Teoria da relatividade


A mais-do-que-batida-piada de que o Psiquiatra é aquele que olha para a reacção dos presentes quando entra uma mulher bonita na sala, pode fazer com que se formule várias hipóteses sobre o dito, em alternativa. A saber:

  • É um mestre da relativização
  • Ou tem uma visão 0,5/20 (para quem não percebe de oftalmologia, é um bocadinho mais do que certos árbitros da primeira divisão do futebol português, mas a anos-luz de qualquer toupeira...)
  • Ou tomou, propositadamente ou não, uma dose elevada de um antipsicótico à vossa escolha
  • Ou não se sente atraído por mulheres e/ou prefere Aristófanes
  • Ou tem a esposa ao lado...
Pessoalmente, prefiro a primeira opção. Acho-a muito mais romântica e fica sempre bem no curriculum vitae. 

Uma das coisas que se aprende com a prática da psiquiatria, da medicina, do dominó, da vendas de enciclopédias e de outras ciências similares sem as quais a civilização moderna não passaria, é a relativizar.

Permite-nos deslocalizar, por instantes, o foco da nossa atenção, e dar-nos uma nova perspectiva da realidade, out of the box, ou para lá do umbigo...
Permite-nos diferenciar o essencial do acessório e focarmo-nos no que realmente importa...
Permite abrir portas onde se fecharam janelas, apreciar as estrelas quando o sol se pôs e vários outros clichés pseudomotivacionais de que não me lembro agora...

Mas na prática, dá-nos a hipótese de tentar compreender porque é que o sr. Almerindo, recentemente reformado de 67 anos, ou a D. Carla, recentemente divorciada, de 39 anos, nos chegam à consulta aos gritos... Talvez por uma recente perda de ocupação...

E isso repercute-se na restante vida: consegue-se perceber que a nossa tia Laércia, de 85 anos, já meio demenciada, é o terror das auxiliares da casa de repouso onde está, praticando a política do quero, posso e mando, mas sempre foi muito senhora do seu nariz e, pura e simplesmente, está com dores na coluna... 

Tudo é, de facto, relativo neste mundo.

Como diria David Mourão Ferreira:

"Há-de vir um Natal e será o primeiro 
em que se veja à mesa o meu lugar vazio 

Há-de vir um Natal e será o primeiro 
em que hão-de me lembrar de modo menos nítido 

Há-de vir um Natal e será o primeiro 
em que só uma voz me evoque a sós consigo 

Há-de vir um Natal e será o primeiro 
em que não viva já ninguém meu conhecido 

Há-de vir um Natal e será o primeiro 
em que nem vivo esteja um verso deste livro 

Há-de vir um Natal e será o primeiro 
em que terei de novo o Nada a sós comigo 

Há-de vir um Natal e será o primeiro 
em que nem o Natal terá qualquer sentido 

Há-de vir um Natal e será o primeiro 
em que o Nada retome a cor do Infinito 

David Mourão-Ferreira, in 'Cancioneiro de Natal' "

Não quero deprimir ninguém, nem ser, apesar da altura do ano, suficientemente tétrico, mas um post a dizer "Voltei, mas agora acreditem mesmo!" seria um tanto ou quanto repetitivo...

E não sei se voltei. Ou se é o blog que voltou a mim... Tudo é, de facto relativo! Até a vida...


1 comentário:

Maria Nunes disse...

Ainda que seja relativo, por favor não fique assim tanto tempo sem aparecer, para mim foi uma eternidade. Bem "regressado" espero que por um tempo relativamente longo, é sempre um gosto lê-lo.

Teresa