sexta-feira, 20 de março de 2009

A próstata

Estava eu, outro dia, em casa da minha mãe quando tocou o telefone. Atendi-o.

(E o diálogo que se segue tem o seu quê de insólito...)

- Estou?
-Boa noite, primo.

-Olá, boa noite, prima. - tentei parecer o mais cordial possível, apesar de não reconhecer a voz. É que para quem não sabe, na terra da minha mãe, não chamar primo a uma pessoa que não se conhece de lado nenhum e que a única coisa que nos une é o facto de o trisa-tetra-avô ser primo em 5º grau, por afinidade do avô congénere dele, é considerado deselegante, quase sinal de má-educação...

-A sua mãe está, não está?(...) Não sabe quem é que fala?

- Pois, de facto não...

- É a prima Otília, mulher do falecido primo António Alberto...

- Ah, como está?! - tentei novamente parecer o mais cordial possível, disfarçando o facto de não fazer a mais pálida ideia de quem se tratava... - vou já passar à minha mãe.

- Mas escute - atacou a interlocutora - diga-me uma coisa: o meu Zé Manel fez um exame à prostata e diz que a próstata pesa 32 gramas... Acha que ele a deve tirar ou não?

- Pois, eu não tenho dados suficientes para responder a isso... - disse eu, mal disfarçando a surpresa - que idade tem o seu filho?

- Tem 53 anos.

- De facto não tenho dados suficientes nem sou especialista. Mas a prostata aumentada é normal em todos os homens a partir de uma certa idade... é melhor consultar um especialista... [ainda pensei em dizer o clássico "eu não sou de cá, eu só vim ver a bola. Sei onde é a cabana dos coiratos e a casa de banho...", mas contive-me...]

-Mas sabe onde há bons especialistas na próstata? Ouvi falar no Hospital da Luz, que é onde estão todos os especialistas bons em Portugal! É que se ele tiver que ser operado, quero que seja no Hospital da Luz, porque houve uma moça da minha terra que teve lá um filho e foi muito bem atendida!

- Especialistas bons há em muitos sítios... (...) Mas eu vou passar à minha mãe, está bem?

Depois do adeus da praxe, a minha mãe lá lhe explicou, pacientemente, durante cerca de 1 hora, que os hospitais privados normalmente fazem-se pagar bem, e que não era por a prostata pesar uns gramas a mais que seria logo operado.

Deste episódio tenho dois ou três pedidos de desculpa a fazer à minha família:

  1. Desculpem-me o facto de eu, talvez, numa atitude de indisciplina inconsequente, ter faltado à aula em que falavam sobre o peso do órgão, e não saber de cor o peso das próstatas alheias.
  2. Desculpem-me o facto de, só com esse dado, não ter conseguido dizer qual a manobra terapêutica necessária - uma prostatectomia radical, uma castração química, ou um tratamento psiquiátrico à mãe do futuro (ou ex-futuro, se o conseguirmos salvar a tempo) prostatectomizado...
  3. Desculpem-me o facto de não conseguir tomar essas decisões de ânimo leve. Tivesse eu coragem e a primeira coisa que faria depois do pequeno almoço seria prostatectomizar alguém... Mas não tenho. A única coisa do género que tenho umas luzes, não tão ténues quanto isso, de como se faz (mas que, aliás, é tremendamente eficaz...) é electroconvulsivoterapia... E essa não é uma decisão que se tome de ânimo leve, apesar de os riscos serem pequenos face ao benefício...


6 comentários:

estrelinha disse...

Realmente haja paciencia,a sorte é que é psiquiatra lol

Celina disse...

Só para informar que li, e mais uma vez adorei a forma como se expressa e aborda as situações...o que eu já me ri hoje às custas deste "episódio"...
Estarei por cá...
Celina S.

tummytuck disse...

Ó primo, se não sabia, tinha-me perguntado, que eu respondia! Aqui a Otilia não se ofende. Mas olhe que de futuro, para seu próprio bem, informe-se do peso da próstata! Diana

disse...

...Belo blog! :)
Parece-me que temos algo em comum... Tbm tenho uma certa ligação à "psiquiatria" se me faço entender... :)

Mamã Babada disse...

Oi!
Sou doente com distúrbio borderline, associada a uma epilepsia. Acontece que já corri mil e uns neurologistas e nenhum me sabe explicar se ainda sofro desta última doença. O que me aconselharam foi a continuar a tomar a mediação.

Será que este exame que falas, me poderia ajudar a curar a epilepsia e o distúrbio borderline?

É que estou disposta a tudo. Sinceramente não quero ser internada novamente por tentativa de suícido.

Podes ajudar-me?

Se sim, responde aqui no post. Depois entrarei em contacto contigo.

Ajuda-me, vá lá!

Psiquiatra da Net disse...

Obrigado pelos vossos comentários:

Mamã Babada:
O ECT é um tratamento.
Não fazem parte das indicações do ECT a perturbação borderline da personalidade, nem a epilepsia.

Sugiro que consulte um psiquiatra para ajuda em relação às opções disponíveis, quer do ponto de vista da medicação, quer do ponto de vista psicoterapeutico.