sábado, 7 de março de 2009

Nas urgências - a gravidez

Confesso - até nem desgosto de fazer urgências. Não fossem as noites quase em claro, o volume intenso de trabalho, o gabinete sem condições e o jogo-do-empurra e as sabujices, praticadas por certos colegas de outras especialidades, que vêm a psiquiatria como saída para os casos sociais e para as situações, que apesar do seu foro, não querem assumir, até poderia dizer que gosto mesmo de as fazer.

Há situações que, desde que tenha o devido tempo para tal, me põem a pensar...

O telefone do meu gabinete tocou. Pedi desculpa à doente que estava a atender. Era uma médica de outro hospital que, por não ter urgência de psiquiatria, é cliente habitual do hospital onde presto esse serviço, no que toca a transferências de doentes para observação por psiquiatras.

Identificou-se.

- Colega, tenho aqui um caso que não sei como hei-de dar volta. Uma senhora que está com uma crise de ansiedade, porque descobriu que está grávida de 5 semanas, e o médico assistente suspendeu-lhe a medicação antidepressiva que fazia há muitos anos.

Acabámos por combinar que a colega me enviasse a doente para eu a observar.

(Se, muitas vezes, nos enviam os doentes sem o mínimo de indicação para ser observadas na urgência de psiquiatria, porque não enviar-me a senhora, dada a situação da gravidez?)


Quando a senhora veio, não vinha sozinha. Vinha com mais uma doente.
Recolhi as fichas que o maqueiro da ambulância me estendia e perguntei, sorrindo:
- Quem é que quer ser a primeira?
- Quero eu! - disse-me logo uma doente, sorridente, com o ar, diga-se de passagem, deprimidissimo, de quem acabou de ingerir medicamentos após uma discussão com o marido. (que era o que, de facto, se tinha passado...)
- Qual das senhoras é que está grávida? - se até nos autocarros as grávidas têm prioridade, porque não naquela situação?
- Ah, isso não! - respondeu-me a senhora sorridente.
Mandei entrar então a outra senhora.

Estava a fazer antidepressivos desde a morte de um filho, aos 8 anos de idade. Desde aí, tinha começado com crises de ansiedade súbitas, sem objecto (crises de pânico), acompanhadas de tristeza, ansiedade, perda do prazer naquilo que fazia.


(Já agora, o vídeo é sobre perturbação de pânico, e está excelente...)

Tentou, por várias vezes, sob orientação médica, parar lentamente com a medicação.
Não conseguiu. Os sintomas da doença voltavam ao fim de algum tempo. A perturbação de pânico tinha-se tornado crónica.

Quando descobriu, com alguma surpresa, mas com satisfação, que estava grávida, foi ter com a médica psiquiatra assistente. Dado que a senhora estava medicada com paroxetina, um fármaco que tem sido associado a malformações cardíacas no feto, nalguns relatos de caso.

A médica, alarmada, sugeriu a interrupção imediata da medicação.

Quando se interrompe certos antidepressivos (uns mais que outros)´de forma abrupta, surge um conjunto de sintomas que nós chamamos, no nosso "mediquês", de ansiedade de rebound.
Não é mais do que uma crise de ansiedade, que pode ou não ter sintomas associados à ansiedade como as dores de cabeça, o nó na garganta, as mãos a bater...

Foi este o caso, e daí a vinda da senhora à urgência.

Como já estava mais calma (tinha-lhe sido administrado um ansiolítico no outro hospital), expliquei-lhe o que havia de evidência em relação ao uso de antidepressivos (neste caso, os damesma classe do Prozac), na gravidez. Em grávidas não há estudos controlados sobre o facto, mas, em relação a alguns antidepressivos desta classe, não se provou que fizessem mal ao feto (mas também não se provou que fossem inócuos).

Ofereci-me, ainda, para a medicar com o fármaco que, nestas condições, se revelou, pela experiência, ser mais seguro (sertralina).

Contudo, remeti essa decisão para a utente em causa.

No fim da minha explicação, a senhora perguntou-me:
-Doutor, mas garante-me a 100% que o medicamento não faz mal ao bebé?
-Não, não garanto a 100%. Mas a experiência clínica é favorável!
Foi então que a resposta me espantou, apesar de, na minha especialidade, se poder esperar tudo...
-Assim, prefiro tirar o bebé, que Deus me perdoe... Se não é possível garantir que o medicamento não lhe faça mal... Eu não quero fazer medicação estando grávida, mas também não consigo estar assim...

Apesar de reconhecer e apoiar a capacidade da mãe para decidir nesse caso, contra-argumentei, perguntando-lhe se tinha a certeza daquilo que queria fazer, e que tal decisão não poderia ser tomada de forma leviana. Recomendei também que falasse com o pai da criança.

-A decisão está tomada. Eu quando tomo uma decisão vou até ao fim.

Perante isto, encaminhei-a de volta para o hospital de origem, para que este o referenciasse ao serviço de Obstetricia da área.

14 comentários:

Azzrael disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Azzrael disse...

Uma situação muito delicada...
Nem sei o que pensar. Muito provavelmente reagiria da mesma maneira que a Sra, pois trazer ao mundo uma criança com algum tipo de deficiencia é complicado. Sei que isto implica uma série de questões éticas que dão sempre muito para se falar e discutir.
Obrigado pela partilha.
Continuação de bom trabalho.

Lete´s do it! disse...

BOLAS!? Então o juramento de Hipócrates é isso?
Ter de carregar tanta dor...ter de presenciar tanta dor? Não teria tanta coragem...
Parabéns pelo blog! Serviço público de excelência.

Celina disse...

Vim só dizer q adorei ler o seu blog...
Vou voltar...bom trabalho!

Lara disse...

Eu tomei sertralina durante a gravidez. Felizmente que o meu médico obstetra me descansou em relação a isso. Mas não foi no 1º trimestre.
Como ele dizia, provavelmente a ansiedade e depressão ia prejudicar mais a bebé do que a sertralina...
Eu acho que no caso dessa mãe teria arriscado. Mas, quanta dor não deve ela ter sentido...

Raquel V. disse...

Uma das razões (uma digo eu) para não ter tido filhos é esta.
Nunca tentei sequer... ou talvez tenha tentado a sorte qd soube que era possível tomar algo que não fosse tão perigoso para o bebé... Mas no fundo o medo era mais forte.
É uma história aparentemente curta, não é...? E no entanto tem uma carga tão gigantesca.

Beijo
gostei de te encontrar de novo
raquel v
a páginas tantas

Cerejinha disse...

Esta é daquelas que dá que pensar...

Elsa Neto disse...

Vim ter por acaso ao seu blog, detive-me pela simplicidade e humor com que escreve. Ao ler esta história, parecida com tantas com que me deparo enquanto psicologa num serviço de saúde, questionei-me imediatamente como tinha morrido o filho de 8 anos e se se sentiria de algum modo culpada... situação comum nos casos de luto patológico. Questionei-me também sobre o seu desejo de ter outro filho, dado a gravidez ter sido acidental. Por vezes a insuportabilidade deste peso é carregada pelos que estão à volta, através do mecanismo de identificação projectiva, patente no desconforto e na perplexidade que sentiu nesse momento. Cumprimentos,

Cris disse...

Estou adorar ler o seu blog.
nem sempre é facil tomar certas decisões nas nossas vidas, e por um lado não percebo a atitude dessa mulher, mas quem sou eu para julgar?
Eu engravidei também numa situação muito pior, estava a fazer tratamentos com retinoicos, mas mesmo assim lutei pela minha filha e felizmente ela hoje é saudavel ( tive sorte, muita sorte), talvez por isso não entenda certas atitudes mas como se custuma dizer : " cada cabeça sua sentença".

Continuação de bom trabalho...

madeirajulia disse...

olá!
um amigo fez um tratamento com antidepressivos e ansioliticos à uns meses pois estava a tratar uma depressão. este tratamento foi levado duante um mês e ele decidiu interromper o tratamento de um dia para o outro, sem avisar sequer o médico. Isto porque ele começou uma terapia "choque" com uma espécie de terapeutas baseada na meditação etc. e desde então diz ter sentindo-se muito melhor (e a parenta mesmo muito mais feliz). No entanto, eu estou muito preocupada com ele pois este tratamento mudou a personalidade do meu amigo e ele perdeu grandes partes da sua memória anterior a estes acontecimentos. Ele despediu-se agora do seu emprego (que adorava, e não contou sequer o sucedido a nenhum dos amigos) e passa imenso tempo com estes tais "terapeutas". Este tipo de comportamento não é nada habitual nele, e receio portanto que isto seja uma espécie de recaída, consequência do interrompimento dos medicamentos. É impossivel falar disto com ele, pois ele foi complemente absorvido pelas ideias transmitidas pelos terapeutas com que se tratou, e receio ainda que tenho sofrido uma lavagem cerebral.
será que me podes aconselhar??
madeirajulia@hotmail.com
**********

ESpeCiaLmente GaSPaS disse...

Gostei de ler. Será que tirou mesmo o bebé?

jane disse...

descobri que estou gravida de um mes,e faço tratamento com setralina e rivotril,isso pode afetar meu bebe estou muito preucupada me ajude por favor é meu primeiro filho.

Taynara Silva disse...

Estou grávida e minha médica pediu pra mim não parar com o tratamento com sertralina acho q ela não teve uma atitude boa por que se ela perdeu um filho nada melhor do que um bebê pra alegrar de novo sua vida apenas ela vou tou ao mundo da depressão e agora com uma culpa maior a carregar prefiro arriscar e seja o q Deus quizer se nascer deficiente será meu anjo por ter passado tudo comigo e ainda estar em meus braços

Taynara Silva disse...

Estou grávida e minha médica pediu pra mim não parar com o tratamento com sertralina acho q ela não teve uma atitude boa por que se ela perdeu um filho nada melhor do que um bebê pra alegrar de novo sua vida apenas ela vou tou ao mundo da depressão e agora com uma culpa maior a carregar prefiro arriscar e seja o q Deus quizer se nascer deficiente será meu anjo por ter passado tudo comigo e ainda estar em meus braços