domingo, 6 de março de 2011

Voltei.

Para a meia dúzia de pessoas que me lê, aqui vão algumas respostas em relação a algumas questões que foram enviadas, pela Aula de Informática da Universidade da Terceira Idade de Santo António dos Besugos, directamente para o e-mail do blog...

1) D. Amélia: Estive em periodo sabático. Sim, tem que ver com os Black Sabbath, de que a senhora tanto gosta. Aliás, eu sempre quis pintar a cara como o Ozzy Osbourne. Nunca tive foi coragem nem "maquiage"...


2) D. Eufrásia: Não, senhora. Sugiro que para notícias relacionadas com o estado do processo do Carlos Castro se dirija ao Correio da Manhã... Infelizmente, por questões relacionadas com os direitos de transmissão, estou impedido de mandar qualquer tipo de postas de pescada em relação a isso. Sugiro procurar na secção "comentários". Encontra, decerto, gente muito mais avalizada do que eu para o fazer, tamanho é o grau de certeza das suas afirmações.

3) D. Natércia: Muito obrigado! Admito que goste do meu programa das manhãs. Contudo, devo dizer que não tenho nenhum. Ah, e já agora, nunca fiz de Adolfo em nenhuma novela da TVI, como V. Exª refere. Tenho abdominais a mais...

4) Sr. Benevides: Ainda que este blog faça, por vezes, previsões, conhecimentos mais profundos sobre a interpretação da imagem de satélite impedem-nos de tecer qualquer tipo de conjecturas em relação ao estado  do tempo na Carregadinha. Não, também não sei qual a melhor altura para plantar a couve-flor...

5) Sr. José: Tem toda a razão naquilo que diz. As Universidades de Terceira Idade constituem uma excelente fora de manter o cérebro activo e constituem uma excelente rede social de suporte. Porém, o facto de ser uma rede Social não implica que se possa escrever no mural. Em relação à sua questão, a vasta equipa que escreve este blog está a tratar de fazer um perfil numa rede social um pouco mais pequena - o Facebook. Contudo, não poderei, como o senhor pretende, colocar uma fotografia de uma loiraça de 20 anos, de peito avantajado. e colocar frases mais arrojadas... Isso está fora de questão!!!

6) D. Adília: Concordo em absoluto consigo. Este blog espera não aderir ao acordo ortográfico, a não ser que façam uma extensão do mesmo para as mensagens sms, e que o dicionário do Prof. Malaca Casteleiro passe a incluir smileys :-)

Respondidas estas questões, seleccionadas, e excluídas outras, que a comissão de censura do blog não permitiu que fossem respondidas, agora que deixei de estar submerso debaixo de uma pilha de tratados de psicopatologia, fenomenologia, psicofarmacologia, história da psiquiatria e bricolage, tenho a dizer-vos que voltei. E que espero, caso não venha o FMI e o tempo não piore na Carregadinha, manter-me por este cantinho...

quinta-feira, 11 de novembro de 2010

Das ausências

Tenho recebido centenas de e-mails a perguntar se morri...
Ok, eu confesso, foi só de uma pessoa - era um doente meu, a quem eu dei, por engano o endereço deste blog quando estava a passar-lhe duas embalagens de um antipsicótico, antes que os gregos, perdão, o Governo, diminuísse, de forma inexorável, a comparticipação... Os meus núcleos paranóides suspeitam que ele quer saber que valor atingirão as minhas receitas, assinadas, no Ebay...

Agora a sério...
Para todos os que se perguntam se algo me aconteceu, informo que estou submerso perante uma pilha de documentos.
E, brevemente, submergirei perante uma pilha de livros, ou não tivesse eu uma certa nostalgia dos tempos da faculdade...

Não prometo que volto (qualquer promessa, com os tempos que atravessamos, corre sérios riscos de se desvanecer por culpa dos gregos...), mas o mais certo é ir voltando...

E, para nos inspirar, aqui vai um vídeo realizado pela "Crew" da Faculdade de Medicina de Lisboa...

sexta-feira, 20 de agosto de 2010

A culpa é do sistema?



O que é comum ao Serviço Nacional de Saúde e às SCUT?
Não, não é o facto de ter buracos por tudo quanto é sítio... (Aliás, toda a gente sabe que as autoestradas deste País são o paradigma da boa construção - basta ir à A8...)
É o facto de toda a gente pensar que, pelo facto de ser "tendencialmente gratuito" não se faz pagar - e bem, pelos Portugueses... e que os recursos a ele associados não são escassos...

Isso é especialmente verdade quando a malta se lembra de exigir um serviço de urgência polivalente, com ortopedia, medicina interna, cardiologia, obstetrícia, dermato-venerologia, pneumologia, medicina tropical e sexologia clínica, a cada 20 km...

Algo está, igualmente a falhar, quando algumas pessoas vão às 5 da manhã para a fila da consulta de urgência no centro de saúde, porque "se sentem sozinhas em casa e precisam de conversar"...
Devo admitir que os 2 ou 3 euros que se paga por uma consulta de urgência no Centro de Saúde são muito mais baratos do que ir a uma consulta de Psicologia... ou, diz-se, ligar para aquelas senhoras que aparecem muito despidas em anúncios da televisão e dizem "Me liga, vai!"... mas são seguramente mais caros do que conversar com os vizinhos, ligar para o SOS Voz Amiga, ou ir desabafar com o padre da paróquia...
O problema não é exclusivo das pessoas que vão para a fila: algo está a falhar ainda antes dos cuidados de saúde - associações de apoio à terceira idade, organizações não governamentais...

A questão por si não teria importância se não estrangulasse os cuidados primários, que, já de si sufocados com mobilidades, PEC'S e outras coisas que ficam muito bem no orçamento, já mal conseguem dar conta do recado...Os cuidados de saúde primários não conseguem ser acessíveis às pessoas...

E qual o resultado?

Qualquer pessoa, mesmo tendo uma depressão daquelas que não matam mas moem, há 10 anos, uma unha encravada há 10 meses, ou uma gripe que se trata a chá de limão com mel, há 10 horas, desemboca na urgência...

E manter urgências abertas para tratar situações que poderiam ser encaminhadas com uma boa rede de cuidados primários é como construir uma casa pelo telhado...

Não me entendam mal... Temos dos melhores serviços de saúde do Mundo... Se podia estar mais organizado? Podia... mas não era a mesma coisa...

quinta-feira, 4 de março de 2010

A quase ciclotimia da profissão

Cada vez estou mais convencido de que a nossa adaptação à profissão, ou àquilo que fazemos na vida, evolui por ciclos.
Num dia, achamos que até temos jeito para aquilo que fazemos. A vida corre-nos bem, até conseguimos ter uma relação satisfatória com as pessoas que tratamos e com os colegas de trabalho.  Verificamos que os nossos doentes, apesar de tudo, até melhoram, e sentimo-nos moral e pessoalmente recompensados. Com os nossos colegas temos uma relação perfeitamente harmoniosa (ou pelo menos sem cenas de pugilato, o que já não é mau…). Sentimo-nos, do ponto de vista técnico, científico e pessoal plenamente validados e respeitados. A nossa consulta do hospital cada vez está melhor. Ainda bem que escolhemos a profissão – dizemos, exultantes… Como diria um certo Cândido, tudo corre pelo melhor no melhor dos mundos…
Para quê mudar a nossa profissão, a Vida, o Mundo?
Daí a uns dias, umas semanas, uns meses, com ou sem factor desencadeante, achamos que somos uma nódoa completa, que somos as pessoas mais incompetentes à face da terra, e que não temos jeito para coisa nenhuma, perguntamo-nos a nós próprios como vamos ser capazes de fazer o exame de especialidade que se aproxima a passos largos, Sentimos que a nossa consulta hospitalar é comparável a uma autêntica máquina de encher chouriços: entra doente (em linguagem económica e politicamente correcta, utente ou, mais modernamente, cliente) , sai doente + receita + consulta marcada daí a uma infinidade de tempo, porque os doentes são cada vez mais e os médicos cada vez menos… (ou em linguagem económica e politicamente correcta, a estrutura está cada vez mais ligeira…)
Nestas alturas, questionamos a nossa própria capacidade de comunicação interpessoal, com os doentes e com os colegas de profissão. Os primeiros, até pioram… Quanto a estes últimos, transformamo-los, salvo algumas excepções, num conjunto de seres cínicos, frios e superficiais que acumulam em si tudo quanto é traço socio e psicopático da personalidade, e que têm uma opinião sobre os nossos atributos técnicos e pessoais semelhante à que a maior parte dos portugueses tem dos atributos vocais do Zé Kabra…
Vislumbramos quarenta mil futuros alternativos, todos resplendorosos, e que passam, pasme-se, pelas opções que estavam ao lado, na nossa vida, e que não tomámos. Arrependemo-nos amargamente das bolinhas que, em tempos idos, quase que numa outra vida, colocámos num boletim alaranjado (ainda não se falava sequer de Internet nem de candidaturas por esse meio), que, depois de uma fila de algumas horas, numa escola secundária do centro da cidade, entregámos, cheios de esperança no futuro.
Pensamos na carreira brilhante que poderíamos ter tido na engenharia, ou num qualquer ramo da matemática, excepto a combinatória, bem entendido… Esquecemo-nos do quão secante pode ser a algoritmia, ou do quão intragável se pode, para os mais incautos, tornar a álgebra linear. Pensamos no quão isenta de preocupações, ralações e mesquinhices seria a nossa vida se tivéssemos escolhido passá-la rodeados de números e de algaraviadas cheirando a fórmulas matemáticas, fechados no nosso mundo e isolados do resto da Humanidade...
Consideramos mudar de especialidade, mudar de profissão, mudar de Mundo.
Esquecemo-nos do quanto aprendemos nos últimos anos sobre a Vida e sobre as pessoas. Esquecemo-nos de que essas mesmas escolhas do passado condicionaram aquilo que somos hoje.
E, tudo isto, porque somos “muito fortes”, guardamos para nós (a maior parte de nós, porque queremos manter uma determinada imagem nos outros) e recusamo-nos a partilhar estas dúvidas existenciais com quem quer que seja… E vamos vivendo a nossa vidinha, como se não fosse nada, explodindo de vez em quando, e esquecendo-nos de que os outros, muitas vezes, têm dúvidas existenciais/vocacionais semelhantes às nossas, e que estas são transversais a várias pessoas, a várias profissões e a várias sociedades.
Até a um novo dia, em que achamos que temos algum jeito para aquilo que fazemos… e tudo se repete, uma e outra vez…

PS – Ciclotimia – característica temperamental que se caracteriza pela variação relativamente rápida – em dias - do humor, sem factor desencadeante aparente.

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

Quickie

Como se deixa uma pessoa com personalidade obsessiva ocupada durante meia hora?

  1. Dá-se-lhe um papel e uma caneta 
  2. Retira-se computadores, telemóveis, calculadoras, e todo e qualquer objecto que seja mais recente que um original d'Os Lusíadas... 
  3. Pede-se para calcular o valor de PI com 1000 casas decimais.
Como se deixa um hiperactivo com déficit de atenção ocupado dois dias?

  1. Retira-se o papel e a caneta (se houver)
  2. Dá-se-lhe um computador com acesso à internet e 200 jogos instalados.
  3. Diz-se-lhe: "Agora não sais daí enquanto não escreveres um ensaio de 1 página a descrever a paisagem que vês da tua janela"

terça-feira, 16 de fevereiro de 2010

De molho...


Quando os doentes da nossa consulta de segunda-feira à tarde se despedem de nós, numa clara inversão de papéis, com a expressão "Então as suas melhoras, doutor...", há um sinal de que algo se passa, e que é tempo de pararmos um bocadinho...
Confesso que detesto estar engripado... A sensação de apneia causada pelo nariz obstruído, as dores musculares, como quem ficou todo partido do ginásio sem ir lá há uns bons meses, a tosse, produtiva,  de 15 em 15 segundos (sobre a qual não vou ser escatológico o suficiente, a ponto de descrever a semiologia da expectoração), as noites perdidas entre lenços de papel cheios, a cabeça como se tivéssemos duas ressacas ao mesmo tempo, dão-me cabo da paciência...
Do lado positivo, há o beijo agri-doce da vitamina C, o sumo de laranja feito pelo robot de cozinha que custa o equivalente ao PIB de um pequeno país Africano (com o devido respeito pelos pequenos países africanos) mas pelo menos faz umas sopas, a justificação mais que muita para se estar a dormir...
Portanto, tive de decidir passar o Carnaval mascarado de enfermo... Só espero é que, à semelhança do jogo da infância de algumas das pessoas que nasceram na década de 70, ou no início da década de 80, não me venham tirar peças de plástico cá de dentro e não me obriguem a fazer buzz...

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

Mau génio




Ricardo Araújo Pereira é, para muitos, o melhor humorista português. Para outros, nomes como Herman José, Badaró, Raúl Solnado, Vasco Santana ou José Sócrates são mais do que consensuais... Outros, ainda, argumentarão que o humor é uma característica do povo português, patente em obras magistrais como o Processo Apito Dourado, ou que o melhor humorista é um anónimo jornalista do "24 horas" (para não ser sempre o "Correio da Manhã" o culpado), que escreve todos os dias com um pseudónimo diferente...
Para mim, um dos melhores humoristas portugueses de todos os tempos é André Brun.  E não, não estou a brincar aos pseudo-intelectualóides de esquerda que devoram filme franceses ao pequeno almoço, em vez de comerem criancinhas... É mesmo sincero...
André Brun viveu no Portugal do início do Século Passado, que, pelos vistos, era em tudo semelhante ao Portugal de hoje, só que com menos défice orçamental e com o petróleo mais barato...
Numa altura em que quem sonhasse sequer com a ideia de haver possibilidade de falar à distância com outras pessoas, ou de ler textos que existem apenas numa realidade etérea, daria direito a exorcismo imediato, André Brun consegue a proeza de retratar, com uma penada, há 96 anos, a maioria dos comentários dos leitores online do Correio da Manhã (isto é perseguição!!!) ou do Público...


"MAU GÉNIO


Está demonstrado que um portuguez mata sete pessoas por dia, em média. Logo de manhã acorda e pergunta se já viéram as botas do sapateiro, onde estão a receber fabrico de meias solas e atacadores novos. Ao saber que o homem faltou como um cão ao prometido, primeiro homicídio:
- Mariola! Bandido! Pulha! Safardana! Com que botas hei-de sair agora? Só dando um tiro naquêle tipo...
A família lá o aquiéta com um chavena de café com leite, calmante poderoso para o alfacinha, e dá-lhe os jornais para lêr. Logo na terceira coluna vem a transcrição duma gasêta estrangeira, em que o regimen é caluniado e se reclama a intervenção das potências. O furôr não conhece limites:
- Ah cães! Infames! O que êles precisavam era a lingua cortada, a mão decepada, o bofe arrancado pelos tornesêlos e a vida fóra...
Para socegar os nervos, lê o anuncio do Zé Clemente, levanta-se, lava a cara e vae almoçar. Comparece um bacalhausinho, cercado duma numerosa comissão de grêlos. Fala-se na carestia dos géneros alimentícios, na exploração dos revendedôres, e erguida a faca escorrendo aseite, o nosso amigo berra:
- O que êles precisavam sei eu! Não querem crer que isto não vae lá doutra maneira. Se eu governasse meia hora, enforcava meia dûsia e veriam como isso ficava de emenda...
Enrolado o guardanapo, sae o homem á rua. Está uma carroça parada e um brutamontes á pancada ao pobre cavalinho? Claro está que a unica maneira de remedear o caso era dar uma chicotada no selvagem e matá-lo para o ensinar a viver. No placard dum jornal lê-se que um chauffer atropelou um cidadão pacato e ordeiro? Forma de faser justiça: fusilar metade doschauffers e pegar fôgo aos automoveis que andem com excesso de velocidade. Se acrescentarmos a isto que os sindicalistas todos deviam ser fritos em aseite, que os namorados que matam as namoradas se lhes deviam arrancar as unhas dos pés, etc., etc., podemos faser uma pequena ideia do pitorêsco que teria a existencia, se fosse regulada pelas impulsões de que os portuguêses são tão pródigos. Nas questões particulares nem se fala. Todos nós temos pelo menos cincoenta vitimas em vista, pessoas que nos têm sido desagradeveis e a quem aplicariamos os mais inquisitoriais tormentos.
Afinal de contas somos todos incapases de faser mal a uma mosca e estamos sempre prontos a lançar nos ao mar para salvar uma sardinha que corra risco de se afogar.

André Brun, 30-Junho-913"


Nota: O texto é transcrito com a ortografia original, numa altura em que placard se escrevia placard e não placar... O clube de fãs de Malaca Casteleiro e do Acordo Ortográfico que se insurja a ver se eu me importo....